17 de ago. de 2026

Filme "Corrida dos Bichos": uma distopia que poderia ter ido muito além

O "Corrida dos Bichos”, filme nacional disponível no Prime Vídeo, é uma distopia ambientada no Rio de Janeiro de um futuro não muito distante. A história se passa depois de uma catástrofe climática, que não é explicada em nenhum momento. Sabemos apenas que o mar secou e que a cidade passou por uma grande transformação.

Aviso importante: esse texto contém spoirlers!

Meu objetivo aqui não é dar sinopse do filme, mas sim, conversar sobre o que achei. Por isso, não teremos grandes informações sobre a história, mas somente dos pontos que achei relevante criticar/ mencionar.


Um elenco que sustenta o filme

Para mim, um dos grandes pontos fortes do filme são as atuações. O filme tem um elenco de peso, com nomes conhecidos, e os atores funcionam muito bem nos momentos em que precisam provocar determinadas emoções.

Rodrigo Santoro, por exemplo, está impecável. O personagem dele é extremamente caricato, quase uma representação clássica do bicheiro, e ele abraça completamente essa estética.

Uma cidade abandonada, mas para quem?

Durante a corrida, a cidade parece completamente abandonada. Não há carros, motos ou pessoas circulando. Isso dá a entender que o espaço urbano foi profundamente afetado pela crise climática.

Ao mesmo tempo, existe um distrito onde vivem os rebeldes, que são contrários à Corrida dos Bichos. Esse distrito é uma favela, então fica implícito que aquelas são pessoas pobres.

Mas aí surge uma pergunta: onde estão os ricos?

Se a cidade está praticamente desolada, onde essa parcela da população vive? Em condomínios? Em alguma área protegida? Em outro lugar? O filme não mostra.

E isso seria interessante justamente para criar um contraponto com os rebeldes, que vivem em um complexo semelhante a uma favela.

Também fiquei pensando nos outros pobres que não são contra a Corrida dos Bichos. Afinal, existem pessoas que apostam no jogo e acompanham a corrida. Onde elas vivem? Nessas casas abandonadas pela crise climática? Como essa população se organiza?

São perguntas que o filme poderia explorar para tornar aquele universo mais interessante.

Os rebeldes estão lutando contra quem?

Uma coisa que me incomodou bastante foi a maneira como os rebeldes direcionam seus esforços.

Se eles são contra a Corrida dos Bichos, eu esperaria que o principal alvo deles fosse o sistema que mantém a corrida funcionando: os ricos, os organizadores, os políticos e todas as pessoas que lucram com aquele esquema.

Mas não é exatamente isso que acontece.

Os rebeldes acabam direcionando grande parte da sua energia contra os próprios jogadores.

O percurso da corrida passa ao redor do complexo onde eles vivem e, em determinado momento, alguns jogadores decidem atravessá-lo. Os rebeldes caçam esses jogadores e os derrotam. Até aí, tudo bem dentro da lógica de uma revolução.

Mas eu achei isso muito confuso porque, se eu estivesse fazendo parte daquela revolução, não faria muito sentido colocar como inimigo principal uma pessoa pobre que está participando da corrida para tentar mudar de vida.

O corredor está literalmente colocando a própria vida em risco. Ele pode morrer, perder a corrida e ainda perder o seu “seguro”.

Para mim, os esforços dos rebeldes deveriam estar muito mais voltados para o sistema que sustenta a corrida do que para os próprios corredores.


O “seguro” e a crítica ao capitalismo

Na Corrida dos Bichos, existe o conceito de “seguro”: uma pessoa fica fora da corrida e vinculada ao corredor. Caso o jogador perca, esse seguro é leiloado e vai para o jogador que venceu.

O corredor, portanto, não está simplesmente apostando a própria vida. Ele está colocando outra pessoa em risco também.

E esse “seguro” pode ser um irmão, pai, mãe, tio, sobrinho ou outra pessoa próxima.

Essa é uma ideia extremamente bizarra, mas, ao mesmo tempo, muito real.

Porque, de certa forma, o capitalismo já faz algo parecido conosco.

Todos os dias, muita gente se submete a trabalhos horríveis, ganha pouco e continua naquele sistema porque precisa sustentar a própria família. O nosso “seguro”, a nossa motivação para continuar, muitas vezes são justamente as pessoas que amamos.

Nesse aspecto, achei a ideia muito interessante.

O problema é que, apesar de ter essa ideia interessante, A Corrida dos Bichos não desenvolve isso o suficiente.

A narradora e as frases prontas

Outra coisa que me incomodou bastante foram as frases prontas da narradora dos jogos, interpretada pela cantora Anitta.

Eu entendo a intenção de criar uma espécie de narração divertida, como se estivéssemos acompanhando um grande evento esportivo pela televisão.

Mas, para mim, não funcionou muito bem.

Durante as cenas da corrida, nós, espectadores, já estamos vendo tudo o que está acontecendo. Não precisamos que alguém explique ou narre cada acontecimento.

Talvez funcione melhor dentro da proposta do universo, mas, para quem está do outro lado da tela, acaba passando a impressão de que o filme não confia que o espectador esteja entendendo o que está acontecendo.

O final e a sensação de que faltou história

Até o momento, o filme não se apresenta como o primeiro capítulo de uma trilogia ou de uma franquia. Mas o encerramento deixa muita coisa em aberto e cria claramente possibilidades para uma continuação.

Existem perguntas sem resposta e um clima de que haverá um segundo filme.

O problema é que, antes de pensar em uma continuação, eu gostaria que o primeiro filme tivesse desenvolvido melhor o próprio universo.

Por isso, acredito que essa história funcionaria muito melhor como uma série.

Em um filme, tudo acaba ficando muito corrido. A história precisava de mais tempo para explicar a crise climática, a organização daquela sociedade, a divisão entre ricos e pobres, a política por trás dos jogos e até mesmo o funcionamento da própria corrida.

Não precisava necessariamente explicar tudo de forma didática, mas seria importante oferecer pistas suficientes para que nós conseguíssemos compreender aquele universo.

Afinal, vale a pena assistir?

No fim, A Corrida dos Bichos é um filme que dá para assistir, se distrair e até se divertir. O elenco é muito bom, as cenas são bem construídas e existem ideias interessantes ali.

Mas, para mim, ele funciona muito mais como um filme para passar o tempo do que como uma distopia para pensar e refletir.

Não porque a ideia seja ruim, mas porque falta contexto. O filme menciona uma grande crise climática, mas não explica que crise foi essa. Não sabemos se foi algo que aconteceu no Brasil, no Rio de Janeiro ou no mundo inteiro. Não sabemos como a sociedade chegou àquele ponto nem como ela se reorganizou depois.

E, para mim, isso faz muita diferença.

Conta pra mim o que você achou do filme, vamos hablar! :)



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